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domingo, 12 de julho de 2015

A Felicidade Nossa de Cada Dia

Conseguir perceber que a partir de pequenos acontecimentos diários se constrói uma grande felicidade pode ser uma das maiores descobertas da sua vida.



Passamos boa parte da vida buscando o que for necessário para conseguir a tão sonhada felicidade. Geralmente ficamos tão focados nessa busca que nem percebemos que aquilo que tão ardentemente buscamos pode estar mais perto de nós do que imaginamos.

É algo similar a ter de atravessar um lindo bosque antes que anoiteça para não errar o caminho, e não ter a chance de se deleitar com as flores ou contemplar a paisagem a fim de rapidamente encontrar a saída e chegar ao objetivo.

Ao longo de nossa jornada pela vida criamos um roteiro imaginário, ideal e perfeito, em que todos os construtos daquilo que consideramos bom e interessante estão sedimentados e organizados de maneira a nos fazer crer que atingiremos ‘a tal’ felicidade. Somos orientados a seguir esse roteiro de maneira retilínea e uniforme, sem desvios, com planejamento detalhado e metodologias eficientes.

Esse construto vem permeado daquilo que nos foi culturalmente transferido, que assimilamos e acatamos como algo aceitável e bom, mas que geralmente alcançamos com um questionamento interior que nos acompanha e incomoda: ‘então era só isso?!’.

Talvez seja o que nos ocorre algum tempo depois de aprendermos a andar de bicicleta, depois que damos o primeiro beijo, quando terminamos o ensino médio, passamos no vestibular, quando conquistamos o primeiro emprego, o primeiro amor, o sonhado cargo, ou o carro, ou o cônjuge, quando fizemos ‘aquela’ viagem ou ganhamos ‘aquela’ grana.

Depois dessas e de tantas outras conquistas que podemos fazer na vida, eis que surge o questionamento inesperado: ‘era só isso mesmo?!’.

Mesmo sabendo que ‘só isso’ pode ser muita coisa, após alcançar um após outro os objetivos de nossas listas intermináveis, lá estamos nós outra vez, sedentos e inquietos, novamente à procura da ‘tal’ felicidade.

Esquecemos, pois, de notar que a felicidade pode estar nos menores detalhes que ocasionaram os grandes momentos que culminam com o alcance de nossas metas e objetivos.

Esqueceram de nos contar um segredo: que a felicidade está na sutileza das coisas e não necessariamente na grandiosidade dos fatos.

Anouk Lacasse  flores vento cabelos.jpg
Fonte da imagem: http://witchclubhouse.blogspot.com.br/2012/12/onde-o-vento-sopra.html

A felicidade pode vir disfarçada em uma xícara de chá quente, num céu azul de nuvens brancas, na brisa fresca e na areia quentinha sob os pés; a felicidade está presente na risada alta, nas mãos entrelaçadas, nos olhares singulares. Ela, a felicidade, está presente na coberta macia, no gole de água refrescante, no barulho da chuva na janela, no cheiro do mar, na delicadeza do gesto, no cheiro do pão saindo do forno, no gosto gostoso do arroz soltinho; a felicidade está no bom dia recebido, no selinho trocado, no abraço apertado, na mão estendida. Ela pode se esconder entre as páginas de um livro, na profundidade de um olhar, no significado de uma poesia, na letra de uma canção ou numa melodia harmoniosa. A felicidade habita na flor que se abriu, no pássaro que canta, no sol que aquece. Ela está escondida no silêncio gratificante, na postura bondosa, na palavra acolhedora, no trato respeitoso.

A felicidade mora no coração sensível e caminha com pés velozes ao encontro de todos os que a desejam. Mas é necessário ter olhos para ver e coração para sentir.


© obvious: Por Mariblue

quinta-feira, 9 de julho de 2015

"SE CUIDA!" "FICA BEM!" E A ARTE DE NÃO SE ENVOLVER

A superficialidade nas relações ainda vai nos levar a um lugar tão seguro, mas tão seguro, que nada poderá nos atingir, tocar ou alcançar... Nem a nossa própria voz. 


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A nossa obstinada busca pela “paz interior” nos garantirá a refinada capacidade de nos blindarmos dos perigos do mundo e do maior perigo de todos: sermos incluídos na dor do outro. Sairmos da confortável situação de “espectador” para a arriscada tarefa de “personagem” é algo que nos assusta demais. Esse esforço de preservação pode nos render uma ilusória sensação de estarmos protegidos das tragédias alheias. Mas, nos cobrará um alto tributo: seremos ilhas humanas cercadas de indiferença por todos os lados. A indiferença é uma atitude deliberada e cruel, travestida de distanciamento involuntário. O fato de não sermos nós os causadores do sofrimento, não nos absolve; não nos concede o benefício da cegueira emocional. Observar o sofrimento alheio seja ele confesso ou não, e nem ao menos nos dispormos a encontrar uma singela forma de minimizá-lo, nos iguala àquele que o causou. Ou não?!

A mínima disposição de sairmos do modo automático, talvez nos ajude a ter olhos capazes de enxergar além do que é óbvio ou visível. Desde o momento em que saímos de nossas camas (e nesse caso é importante, mas não indispensável, que tenhamos uma, com um teto confortável sobre ela mais as garantias mínimas de sobrevivência!), até o momento em que retornamos a ela no final do dia, fazemos inúmeras intersecções com outras pessoas, conhecidas ou não. No entanto, o fato é que somos especialistas em transformar o que seria uma intersecção num tangenciamento. Tomamos tanto cuidado para não nos esbarrarmos que ficamos assim: linhas que se tocam, mas não se cruzam. Somos seres isolados, encapsulados, encaixotados.


Imaginemos, então, que a partir da próxima manhã tomássemos a arriscadíssima decisão de sairmos da tangente. Abriremos os olhos ao raiar do dia e sairemos de nossas confortáveis camas com a legítima intenção de mantê-los abertos, não apenas para ver, mas para olhar e, sobretudo, enxergar o nosso entorno. Quem sabe com essa corajosa decisão não acabemos por abrir também os nossos ouvidos e, até, quem sabe as nossas mentes e corações. Assim, transformados em seres capazes de perceber o outro, abriremos mão da nossa redoma de ignorância emocional e uma nova categoria de relação humana se apresentará diante de nossos maravilhados e incrédulos olhos. Imagine sermos capazes de enxergar um possível olhar preocupado da pessoa que nos serve o café na padaria; ouvir e ser tocado por um eventual suspiro de um colega que trabalha ao nosso lado (como é mesmo o nome dele?); perceber e se importar com a postura acanhada daquela outra pessoa que divide o espaço conosco no curso de inglês. Imagine sermos ousados a ponto de nos importarmos com isso, de nos envolvermos com isso, de sairmos da nossa zona de conforto para tocar a zonade desconforto do outro.

As relações humanas nesse nosso maravilhoso mundo moderno são pautadas no individualismo e na perda do conceito de coletividade. Entretanto, existem inúmeros insurgentes grupos de pessoas que nadam contra essa corrente e fazem parte de uma estranha categoria que arranja tempo, disposição e desejo para importar-se com questões que não afetam diretamente suas vidas.
Fundada por Wellington Nogueira em 1991, a ONG Doutores da Alegria, foi inspirada no trabalho do Clown Care Unit, criada por Michael Christensen, diretor do Big Apple Circus de Nova York. Wellington integrou a trupe de palhaços em 1988, satirizando as rotinas médicas e hospitalares mais conhecidas. Ao retornar ao Brasil, decidiu implantar um programa semelhante. Vinte e quatro anos depois, a ONG já realizou mais de um milhão de visitas a crianças hospitalizadas, seus acompanhantes e profissionais de saúde. A base do trabalho é o resgate do lado saudável da vida e todos os seus projetos se utilizam da arte para potencializar as relações. O trabalho da ONG, gratuito para os hospitais, é mantido por recursos financeiros obtidos através de patrocínio, doações de empresas e pessoas e por meio de atividades que geram recursos, como palestras e parcerias com empresas.

Em 1997 um grupo de jovens começou a trabalhar pelo sonho de superar a situação de pobreza em que viviam milhões de pessoas. O sentido de urgência em assentamentos precários os mobilizou massivamente a construir moradias de emergência em conjunto com as famílias que viviam em condições inaceitáveis e a focar sua energia em busca de soluções concretas para os problemas que as comunidades enfrentavam a cada dia. Esta iniciativa se converteu em um desafio institucional que hoje é compartilhado em todo o continente. Desde o início no Chile, seguido por El Salvador e Peru, TETO empreendeu uma expansão e após 18 anos mantém operação em 19 países da América Latina: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Haiti, Honduras, México, Nicarágua, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. TETO é uma organização presente na América Latina e Caribe, que busca superar a situação de pobreza em que vivem milhões de pessoas nas comunidades precárias, através da ação conjunta de seus moradores e jovens voluntários. TETO tem a convicção de que a pobreza pode ser superada definitivamente se a sociedade em conjunto reconhecer que este é um problema prioritário e trabalhar ativamente para resolvê-lo.

O trabalho voluntário é uma forma de assumirmos o nosso papel de ser individual que integra e interage com a sociedade; é oferecermos o nosso empenho e trabalho para revertermos situações de injustiça social, emocional e moral. Quando nos dispomos a abraçar uma causa que não tem nada relacionado diretamente com nossas questões pessoais, damos inúmeros passos à frente na trajetória da nossa efêmera vida. No entanto, não é indispensável estarmos engajados em grupos ou coletividades unidas por este ou aquele ideal. Se estivermos, melhor! Mas, se formos capazes de fazer algo muito mais simples e alcançável para todos, já estaremos no início do caminho; é um excelente primeiro passo. Diante da dor, da insegurança, da fragilidade de qualquer pessoa, próxima ou nem tanto, NUNCA diga “Se cuida!” ou “Fica bem!”. Essas pequenas expressões, tão corriqueiras, ditas automaticamente porque são socialmente aceitas, revelam uma triste superficialidade. E o cultivo dessa postura tão ausente e superficial pode nos custar muito caro. Pode tornar-nos seres irreversivelmente insensíveis; incapazes de nos conectar com o outro. Em um médio espaço de tempo, cegos ao que não nos atinge diretamente; e, logo mais, cegos de nós mesmos.


Por Ana Macarini

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Gente tem necessidade de gente


            
Para Lia Diskin, o consumismo é uma tentativa de suprir a carência de laços afetivos cada vez mais escassos.


"De onde surge essa fantasia de que eu não preciso de alguém? Claro que eu preciso”, afirma Diskin
“Como está seu irmãozinho? Costumava me perguntar o padeiro do bairro quando ia comprar pão em Buenos Aires”. A cofundadora da Associação Palas Athena Lia Diskin contou essa situação de sua infância para ilustrar o enfraquecimento dos vínculos afetivos na sociedade atual. A lembrança de Diskin integrou sua resposta ao questionamento ‘Quem é o ser antes do ter?’ durante uma roda de conversa sobre consumo consciente na Virada Sustentável.
Para ela, que também é coordenadora do Comitê da Cultura de Paz, as coisas mudaram. “As comunidades já não têm a coesão interna que elas tinham. Havia realmente um interesse de uns pelos outros e, consequentemente, um cuidado de uns pelos outros. A própria família foi encolhendo e em alguns casos até se esgarçando. O vínculo de importância que eu podia ter com meus irmãos ou com meus primos hoje está praticamente esvaecido."
A simples posse de algo não consegue dar conta dessa necessidade que o humano tem do humano.
Como consequência da carência de legitimação e reconhecimento provocada pela falta de laços amorosos, as pessoas consomem em excesso na esperança de que coisas materiais irão suprir a angústia existencial. Mas, segundo Diskin, isso seria impossível. “A simples posse de algo não consegue dar conta dessa necessidade que o humano tem do humano. Gente tem necessidade de gente”, sentencia.
Somos seres dependentes
 Para comprovar a importância dos vínculos afetivos, ela argumentou que desde o momento em que nascemos até o final da vida precisamos ser cuidados por outros seres humanos. “Se nós começamos e findamos a vida nesse entorno amoroso de mútuo acolhimento, o que acontece no meio? De onde surge essa fantasia de que eu não preciso de alguém? Claro que eu preciso.”
Para você, o que é a felicidade?
 Essa pergunta foi dirigida a 800 brasileiros de todas as regiões em uma pesquisa do Instituto Akatu. Os resultados mostraram que a maioria dos entrevistados – independente da classe social ou idade - priorizam mais o bem-estar físico e emocional e a convivência social do que a posse de bens materiais e aspectos financeiros. Os dados endossam a tese de Diskin de que vínculos afetivos contribuem para a felicidade.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Fracasso

                   

Hoje vi uma entrevista de Eugênio Mussak sobre o fracasso e achei muito interessante a forma como ele abordou a questão.

Compartilho aqui com você desejando que esta leitura te possibilite uma auto avaliação dos fatos que você por ventura tenha rotulado como "fracassos". 

Boa reflexão!

Para começo de conversa, quem nunca experimentou o gosto do fracasso, das duas, uma: ou nunca fez nada na vida e, portanto, jamais se submeteu à possibilidade do fracasso, ou é um super-homem infalível. Sinceramente, nesse caso eu acreditaria mais na primeira hipótese.

Ninguém é infalível, portanto todos estamos expostos à possibilidade do insucesso, e ele aparecerá, acredite, porque está escondido em alguma curva do tempo. É só aguardar. Por outro lado, o fracasso eventual é até útil, pois faz parte do processo de crescimento, aprendizado e aprimoramento pessoal. Ouso dizer que até sinto pena de quem nunca fracassou, pois perdeu uma excelente oportunidade de se transformar para melhor. Mas, claro, vamos examinar esse tema com mais cuidado, para que não pareça que estou fazendo apologia do fracasso.

É muito oportuno, por exemplo, lembrar sempre que você será julgado menos por seus fracassos e mais pelo que você faz com eles. As biografias que interessam, aquelas que ensinam alguma coisa útil ao leitor, costumam não acobertar os insucessos do biografado. Até dão certa ênfase ao assunto, pois o fracasso que antecede o sucesso tem o poder de dar a este um toque de charme. Conta-se, por exemplo, que Thomas Edison teria feito cerca de mil tentativas fracassadas antes de inventar a lâmpada. E a cada experiência sem êxito ele dizia: “Ótimo. Acabei de inventar mais um jeito de não fazer a lâmpada”. E, claro, capitalizava o aprendizado.

Pessoas como o inventor americano são dotadas da auto-estima saudável que lhes permite absorver a pancada do fracasso e da autoconfiança que os leva a tentar de novo. Elas aceitam o julgamento alheio, mas obedecem mesmo é o próprio julgamento. Ninguém, a não ser a própria pessoa, conhece todas as variáveis que interferiram no processo que a levou a não atingir seu objetivo.

Fracasso representa um fato e significa o mau êxito do mesmo, mas também é o nome que se dá a um sentimento, aquele peso que se percebe no peito quando algo não vai bem e nos culpamos por isso. São fenômenos correlatos, mas independentes. Você pode ter tido um tremendo insucesso e não se culpar por isso, olhar para a frente, utilizar o acontecido como aprendizado e partir para outra. Da mesma forma, você pode ter atingido o objetivo desejado, ser reconhecido por todos, mas conviver com a sensação de que algo está errado. Ou você poderia ter feito ainda melhor, ou o sucesso dependeu menos de você e mais da sorte, ou, ainda, você ganhou a batalha, mas era a batalha errada. O sentimento que deriva dos erros e dos acertos é, portanto, relativo. Repito, com a insistência dos chatos, mas também dos convictos: o que interessa é o que você faz depois. E, para isso, às vezes é preciso visitar o passado para verificar onde foi que a engrenagem do destino emperrou.

A máquina do tempo

Há cerca de 20 anos, o cineasta Steven Spielberg, genial criador de trilogias, filmou o engraçado De Volta para o Futuro. Em cena, um protagonista especial: uma máquina do tempo em forma de automóvel. O jovem Marty McFly entra sem querer na geringonça no lugar de seu criador, o cientista Emmett Brown, e viaja para o passado, retrocedendo à época em que seus pais tinham sua idade. O resultado da aventura é hilário, mas o tema central é o esforço do jovem para não interferir no futuro.

Ele teme impedir seu próprio nascimento. Isso não acontece, mas ele não consegue não interferir de algum modo. Acaba mexendo no passado e termina por modificaro presente. A sorte é que a modificação é boa, e, quando volta do passado, sua vida e a de sua família tinham mudado para melhor. Coisas da cabeça fértil do Steve.

Pois é, a idéia da máquina do tempo, presente nesse filme, é bastante antiga, e – esse é o fato relevante – está ligada menos à curiosidade de conhecer o futuro e mais ao desejo de voltar ao passado com a finalidade de modificá-lo e, com isso, interferir no presente. Não é só o Spielberg que é maluco. E todos nós somos cineastas em potencial.

Tratar a experiência do sucesso e a do fracasso da mesma forma é sinal de maturidade

Quase todas as pessoas que se dizem seduzidas pela idéia de voltar no tempo estão motivadas para fazer alguma coisa que não fizeram ou para não fazer algo que se arrependeram de ter feito. “Ah, se eu pudesse voltar no tempo…”, dizem as titias que não casaram, os homens sérios que não aproveitaram a juventude, os pais que estragaram os filhos com mimos e excessos.

Voltar no tempo é uma fantasia divertida e útil, por estranho que pareça. E é útil porque nos obriga a refletir sobre o que gostaríamos de mudar em nossa jornada, portanto, em nós mesmos. A boa notícia é que, nesse sentido, a máquina do tempo já existe, é barata e acessível a todos nós: é nossa própria consciência. A percepção saudável da realidade permite que façamos uma conexão lúcida entre as experiências presentes e o significado do passado. Parece complexo? Não é tanto como parece, veremos.

Fazendo conexões

Então, atenção – o passado não deve ser compreendido apenas em seus próprios termos, mas também em termos das percepções do presente. Portanto, alterações na experiência presente modificam o significado do passado. Como assim? Deu “tilt”? Então preste atenção: à medida que amadurece, o ser humano vai transformando a maneira de ver o mundo, pois sua escala de valores sofre modificações naturais. O que parecia ter importância aos 17 anos, aos 32 pode parecer ridículo. E vice-versa.

Obedecendo ao mesmo raciocínio, quando terminamos o colégio, não temos preocupações que passamos a ter quando terminamos a faculdade. Nada mais lógico, pois a idade muda os centros de interesse e, com eles, a importância dos fatos que constroem a realidade que nos cerca. Só que os fatos vividos e não totalmente resolvidos emocionalmente costumam se acumular em nosso inconsciente na forma de recalques, que se manifestam e interferem em nosso comportamento sem que tenhamos consciência disso – até porque eles habitam a região inconsciente da mente.

É o passado interferindo no presente. São velhos valores, totalmente desatualizados, invalidados, mas presentes em forma de lembranças inconscientes. Está na hora de acionar a máquina do tempo! Como assim? Ora, abrindo espaço para o exercício do autoconhecimento. A maioria dos erros que cometemos em nossa vida deriva da falta de percepção de nossos alcances e de nossos limites. E aumentar o conhecimento de nós mesmos permite o desenvolvimento de duas qualidades imprescindíveis ao bom funcionamento de nossa vida: a auto-estima e a autoconfiança, já referidas acima.

O inconsciente é uma parte do aparelho psíquico regido por leis próprias de funcionamento. Não dispõe, por exemplo, das noções de tempo. Não sabe o que é passadoo que é presente. E é justamente no inconsciente que encontramos os conteúdos reprimidos, que não têm acesso ao consciente por conta de censuras internas. Conteúdos anteriormente conscientes, quando reprimidos por força de algum fato externo, sedimentam-se no inconsciente e podem provocar limitações por toda a vida.

Como falta a noção de tempo, o passado vira presente e nos aprisiona pelos sentimentos que já deveriam ter deixado de existir, uma vez que nossos valores, e os do mundo, mudaram. Costumamos dizer que temos que estar nos atualizando permanentemente, e levamos isso ao pé da letra, mas apenas no mundo profissional, intelectual, tecnológico. Deveríamos também atualizar nossa percepção de nós mesmos, e não apenas do mundo que nos rodeia.

Visitar o passado tem essa grande vantagem, a de limpar os escaninhos. Chamamos esse procedimento de análise, que tanto pode ser com o auxílio de outra pessoa, um profissional de psicologia – o que às vezes é indispensável –, mas também utilizando a prática da auto-análise, através da interiorização, de um corajoso e despudorado mergulho interior. Sem medos, sem pudores e, principalmente, sem autocomiseração, ou seja, sem pena de si mesmo. Trata-se de um exercício fascinante. “Conhece-te a ti mesmo” era a frase predileta de Sócrates, alguém profundamente comprometido com a educação como ferramenta de desenvolvimento humano, e não de passagem fria de conhecimentos. Com sua frase, Sócrates inaugura a moderna psicologia – que tem no mergulho interior e na máquina do tempo suas poderosas ferramentas terapêuticas.

Je ne regrette rien – “eu não me arrependo de nada” –, dizia a pequena grande Edith Piaf. Ela cantou e viveu seus versos mais preciosos: “Minhas mágoas, meus prazeres/ Não preciso mais deles/ Varridos meus amores e meus temores/ Recomeço do zero”. Quanto a mim, é claro que, se pudesse voltar no tempo no bólido do doutor Brown, procuraria fazer algumas coisas de maneira diferente, assim economizaria algum sofrimento. Como isso não é possível, olho para esses momentos com gratidão, pois sempre – e isso não é força de expressão –,sempre que algo deu errado, um novo caminho se abriu, e este, hoje eu acredito, era melhor.

“Sabe quando você pode se considerar uma pessoa adulta, livre e dona de seu destino? Quando, ao se deparar, frente a frente, com o sucesso e com fracasso, conseguir tratar da mesma forma esses dois impostores.” Essa frase é uma licença literária do poema “Se” do escritor e poeta inglês Joseph Rudyard Kipling. Ele chama o sucesso e o fracasso de impostores, pois eles sempre estarão apenas representando. A realidade, a vida como ela é, não tem sucessos, tem momentos de alegria; e não tem fracassos, tem oportunidades de aprendizado.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Integrar tudo! Este é o caminho para a plenitude do Ser

“Tudo aquilo de que me lamento ou queixo, quero excluir. Tudo aquilo a que aponto um dedo acusador, quero excluir. A toda a pessoa que desperte a minha dor, estou a exclui-la. Cada situação em que me sinta culpado, estou a exclui-la. E desta forma vou ficando cada vez mais empobrecido.

O caminho inverso seria: a tudo de que me queixo, fito e digo: sim, assim aconteceu e integro-o em mim, com todo o desafio que para mim isso representa. E afirmo: irei fazer algo com o que me aconteceu. Seja o que for que me tenha acontecido, tomo-o como a uma fonte de força.

É surpreendente o efeito que se pode observar neste âmbito. Quando integro aquilo que antes tinha rejeitado, ou quando integro aquilo que é doloroso para mim, ou que produz sentimentos de culpa, ou o que quer que me leve a sentir que estou a ser tratado de forma injusta, o que quer que seja quando tento incorporar tudo isso, nem tudo cabe em mim. Algo fica do lado de fora. Ao consentir plenamente, somente a força é internalizada. Tudo o resto fica de fora sem me contaminar. Ao invés, desinfeta, purifica-me. A escória fica de fora, as brasas penetram no coração.”

Bert Hellinger